sábado, 12 de setembro de 2026

Por um fio

setembro 12, 2026

A garoa fininha batia na janela da lanchonete onde o grupo costumava se reunir todos os sábados. Três meses haviam se passado desde a noite em que Leo simplesmente evaporou. Nenhuma mensagem no grupo, nenhuma visualização nos stories, o celular dando direto na caixa de postal.

Para Leo, aqueles noventa dias não foram sobre mistério ou drama; foram sobre sobrevivência. Ele sentia que estava equilibrado na ponta de um fio de nylon prestes a arrebentar sob o peso do trabalho, das expectativas e do barulho constante do mundo. A mente tinha virado um ambiente inabitável. Ele não precisava de conselhos, intervenções ou longas conversas analíticas. Precisava apenas do silêncio absoluto para conseguir ouvir a própria respiração de novo e colar os cacos sem ninguém olhando.

Naquela tarde de chuva, a maçaneta da porta de vidro girou, fazendo o pequeno sino acima dela badalar.

Leo deu dois passos para dentro. O casaco cinza estava um pouco úmido, os ombros um pouco mais relaxados do que na última vez em que o viram, mas o olhar ainda trazia aquela calma vulnerável de quem acabou de atravessar uma tempestade sozinho. Ele parou ao lado da mesa circular do canto. O silêncio na mesa durou exatos três segundos.

Marina levantou os olhos do cardápio, piscou duas vezes e apenas arrastou a cadeira de madeira ao seu lado para fora, abrindo espaço.

— Chegou a tempo — disse ela, apontando com a caneta para o papel. — A gente está discutindo há vinte minutos se pede a pizza de quatro queijos ou a de calabresa. Qual é o seu voto?

Rafael, do outro lado da mesa, nem ergueu a cabeça do celular, mas um sorriso discreto surgiu no canto do seu rosto enquanto empurrava o copo de refrigerante para o centro.

— Se ele votar em quatro queijos, a gente perde por maioria — resmungou Rafael, dando um leve tapa no braço de Leo assim que ele se sentou. — Onde é que você esteve com a cabeça de achar que calabresa com cebola é opção válida?

Não houve "por onde você andou?", "por que não atendeu as ligações?" ou "você está bem?". Ninguém exigiu explicações ou fez inventário da sua ausência.

Leo puxou o ar, sentindo o peito finalmente expandir sem dor pela primeira vez em meses. Ali, no meio das piadas idiotas sobre comida e do barulho familiar de pratos, ele entendeu: eles sabiam. Sabiam que todo mundo, uma hora ou outra, fica por um fio. E que a maior prova de afeto que podiam dar não era exigir o seu histórico de danos, mas simplesmente deixar a cadeira vaga esperando por ele até que estivesse pronto para voltar.

— Quatro queijos — disse Leo, a voz um pouco rouca, mas firme. — Sem sombra de dúvidas. 

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Leo, precisava apenas ficar só... O distanciamento temporário não é um ato de egoísmo ou abandono, mas uma estratégia de preservação.

Em um cotidiano saturado de estímulos, expectativas alheias e ruído constante, a mente entra em estado de sobrecarga. Quando alguém fica "por um fio", a capacidade de tomar decisões, processar emoções e até mesmo reconhecer a própria identidade fica comprometida pela interferência externa.

Muitas vezes, distanciar-se é a única forma de parar de reagir ao mundo ao redor e voltar a agir com clareza. Não se trata de fugir dos outros, mas de se reencontrar.

Você já se sentiu ou agiu como Leo?



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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Busca por identificação

setembro 10, 2026

Com a idade chegando, vamos percebendo que alguns tipos de amizade, não sei se pode ser explicado por amizade tudo isso, mas continuo pensando que sim, vão se enfraquecendo, ficando distantes, com a impressão de que talvez a culpa seja de alguém, mas provavelmente não...


Muitos estudos dizem que o sucesso alheio provoca desconforto em outras pessoas, mas eu ainda prefiro não enxergar desta forma, existem muitas razões para qualquer sentimento humano e eu não quero pensar no pior...


Outros chamam de inveja passiva, eu acho também que é algo muito forte e "incriminador".

Eu entendo, é comum nos sentirmos assim, a presença de quem venceu, ou de quem conquistou algo gera um sentimento de inferioridade em quem está na luta pelos mesmos objetivos, é normal, é compreensível, desde que se assuma o sentimento e mesmo se afastando, saiba o motivo e enfrente de cabeça erguida.


O ser humano na maioria das vezes se sente confortável quando pessoas próximas estão em desvantagem ou com problemas, como se a relação fosse de proteção, orientação, algum tipo de ajuda e no momento que este sentimento acaba, seja por inúmeras maneiras acaba esfriando as possibilidades...

Durante um bom tempo, continuarão a enxergar o antigo você. Isso leva tempo, por isso eu quero continuar a levar para o lado de que as pessoas são boas, mas carregam consigo coisas muito complexas que não cabe julgamento.


Em muitas relações, existia um papel escondido estabelecido ao longo dos anos. Quando alguém ganha mais energia, autoestima e passa a impor limites ou a se posicionar de forma diferente, a dinâmica de poder da relação muda.

Cada um sabe de suas próprias frustrações e se afastar não os torna covardes ou de repente se sentirem desta forma.

É como se o único vínculo fosse uma relação baseada em vulnerabilidade onde a proximidade era validada pela troca de desabafos, a sensação de estarmos no mesmo barco enfrentando as mesmas dificuldades e isso infelizmente gera aquele sentimento de que talvez fosse ou pudesse ser chamado de amizade. E o compartilhamento das mesmas dores era o combustível disso tudo.

Mas o segredo é manter todas as lembranças boas e como eu abracei a causa do Desapego, manter o foco no que é necessário e deixar que tudo seja como deve ser. Paciência e nunca pedir desculpa pelo nosso próprio progresso.




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terça-feira, 21 de julho de 2026

Hater

julho 21, 2026

O alarme do celular tocou pontualmente às 6h. Pedro se levantou em um pulo, desligou o aparelho e encarou o espelho. Ajustou o foco nos ombros, fez uma pose rápida para checar o volume muscular e assentiu, satisfeito. Para ele, aquele era o único padrão aceitável de existência. Valeu um "storie" no instagram.


Mais tarde, na academia, Pedro movia as anilhas com o vigor de quem cumpre uma missão divina. Entre uma série e outra de agachamentos, seu olhar varria a sala com julgamento. Na esteira ao lado, um homem na casa dos quarenta anos caminhava a passos lentos enquanto ouvia um podcast.

Pedro balançou a cabeça com desprezo visível e soltou um resmungo para seu parceiro de treino, Igor, que vestia a mesma camisa de treino combinando:


Olha lá. Vir para a academia para caminhar? Se for para não dar o sangue, era melhor nem ter saído da cama. O ser humano não tem mais disciplina hoje em dia.


Igor concordou com a cabeça, rindo. Para Pedro, o mundo se dividia entre "quem busca a evolução física" e "os fracos". Não havia meio-termo.


No caminho para o trabalho, o trânsito fluía lento. Pedro freou bruscamente quando um ciclista passou na sua faixa para desviar de um buraco. Irritado, ele baixou o vidro e gritou:

Lugar de bicicleta é no parque! Fica atrapalhando quem trabalha de verdade!


O ciclista apenas acenou, ignorando a provocação, o que deixou Pedro ainda mais furioso. Na cabeça dele, o esporte de verdade era o dele — a musculação e o futebol de fim de semana com a sua turma. Qualquer outra modalidade ou uso da rua fora do seu padrão era uma aberração.


No trabalho, a hora do almoço sempre terminava em tensão quando Pedro estava por perto. No refeitório, ele sentou-se na mesa do canto com seu grupo fixo de dois colegas que pensavam rigorosamente como ele.

Mariana, da equipe de design, sentou-se na mesa ao lado e comentou com outra colega sobre uma notícia política que lera naquela manhã, expressando uma opinião diferente da visão de Pedro.

Pedro travou o garfo no meio do caminho. Girou o corpo na cadeira e interveio sem ter sido chamado:


Você só pode estar de brincadeira, né, Mariana? Como alguém com um pingo de inteligência consegue defender uma estupidez dessas? É por causa de gente com a sua mentalidade que as coisas não andam.

Pedro, eu só estava conversando com a Camila. Não pedi sua opinião e dá para discutir sem ofender? — respondeu Mariana, visivelmente incomodada.

Não é opinião, é fato! Se você pensa diferente disso, você tá errada e ponto final. — sentenciou ele, levantando-se da mesa indignado e batendo a porta ao sair.


À noite, Pedro foi ao bar da esquina para encontrar seu pequeno grupo de amigos de longa data. Eram cinco pessoas que vestiam o mesmo estilo, praticavam os mesmos treinos, votavam nos mesmos candidatos e repetiam as mesmos piadas.

Enquanto conversavam, o garçom, um jovem universitário, cometeu o erro de puxar assunto sobre um evento cultural que aconteceria na cidade no fim de semana — uma apresentação de dança contemporânea e música instrumental.

Pedro deu uma risada irônica e disparou:


Cara, traz só a cerveja. Quem é que perde tempo com essa palhaçada cultural aí? Coisa de gente sem o que fazer.


O garçom apenas recolheu os copos vazios e se retirou em silêncio. Na mesa, os amigos de Pedro riram e concordaram. Ali, cercado pelo espelho do seu próprio ego, Pedro se sentia invencível. Ele não percebia, no entanto, que cada grosseria, cada cara feia e cada julgamento só o deixava mais isolado em uma bolha minúscula, cego para o mundo diversificado que girava do lado de fora.


Após um dia exaustivo "defendendo seus princípios" na rua e no trabalho, Pedro finalmente chegou em casa, tomou banho e sentou-se em frente ao computador no quarto escuro. A luz fria do monitor iluminava seu rosto compenetrado. Para ele, o dia ainda não tinha acabado; faltava cumprir sua patrulha diária nas redes sociais.

A primeira coisa que fez foi abrir seu perfil para publicar outra foto tirada mais cedo na academia. A iluminação valorizava a definição muscular. Ele gastou longos dez minutos ajustando o contraste e a nitidez até a imagem parecer perfeita.

Na legenda, escreveu com um moralismo afinado:


"O corpo é o templo da mente. Quem não cuida da própria saúde, não respeita a própria vida. A disciplina é a única virtude que separa os fortes dos fracos. Respeite o seu processo, mas nunca aceite a mediocridade. 🦾🏋️‍♂️ #Foco #Disciplina #AltaPerformance"

 

Pedro sorriu satisfeito. A legenda soava quase filosófica, exalando uma falsa empatia e uma busca por iluminação que não passavam de uma vitrine vazia.

Em seguida, Pedro abriu o feed de notícias. O algoritmo logo entregou o que ele mais gostava: um vídeo de um jovem explicando por que tinha decidido parar de praticar esportes de alta intensidade para focar em caminhadas leves e meditação.


O sangue de Pedro ferveu. Ele não conseguiu apenas ignorar e rolar a tela. A necessidade de provar a superioridade do seu "bando" falou mais alto. Sem pensar duas vezes, usou o teclado como arma e deixou um comentário carregado de deboche, projetado puramente para provocar raiva (rage baiting):


"Depois a geração atual não sabe por que é fraca e doente. Trocar treino de verdade por 'meditação'? É muita falta de vergonha na cara. Coitado dos seus pais."

 

Instantes depois, as primeiras notificações começaram a chegar. Outros usuários da sua "bolha" curtiram o comentário e responderam em tom de deboche, validando o ataque. Pedro sentiu uma descarga rápida de dopamina. Ali, protegido pela tela, ele se sentia o juiz moral do mundo.


Já passava da meia-noite. Navegando por uma rede de fotos, Pedro caiu no perfil de um antigo colega de faculdade que havia postado uma foto em família, comemorando a compra da casa própria, mas visivelmente acima do peso e fora da "estética" que Pedro julgava correta.

Em vez de se alegrar pela conquista do conhecido, Pedro sentiu um desprezo imediato. Ele não escreveu abertamente na foto para não se expor, mas mandou o link no grupo de WhatsApp dos seus amigos de treino com uma mensagem áudio curta e ácida:


Olha o estado do fulano, galera. O cara largou a mão completamente. Se entregou. Vitória de verdade é ter saúde e shape, o resto é desculpa.


Com os olhos ardendo pelo brilho do monitor e a mente acelerada pelas dezenas de notificações e discussões que alimentou nos comentários, Pedro finalmente desligou o computador.


Deitou-se na cama e pegou o celular para dar a última olhada nos números. Seu post na academia já tinha dezenas de curtidas e comentários elogiosos de pessoas que pensavam exatamente como ele.

Ele fechou os olhos achando que tinha feito a sua parte para "corrigir o mundo". Não percebeu que, por trás de toda aquela performance e do moralismo de fachada, sua noite terminava como seu dia começou: completamente desconectado da empatia, isolado na própria bolha e alimentando um vazio que nenhuma curtida conseguiria preencher.


Apenas sorriu com a sensação de dever cumprido. Ele achava que tinha vencido todas as discussões do dia. Não entendia que, na verdade, só tinha passado mais 24 horas lutando contra suas próprias sombras.


Um hater é uma pessoa que usa a internet ou o convívio social para hostilizar, criticar e espalhar negatividade gratuitamente sobre os outros, impulsionada pelo desprezo e pela incapacidade de aceitar o sucesso ou as diferenças alheias.

Talvez façamos por impulso, sem querer, às vezes... Evoluir é enxergar seus próprios erros e melhorar de forma que não sejam cometidos novamente.


Qualquer semelhanças com o texto, é mera coincidência... 😉

Pode conter uma "pequena ajuda" de IA

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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Especialistas em coisa alguma que vamos encontrando no caminho...

junho 11, 2026

Não importa qual seja a sua decisão em qualquer área da sua vida, em um certo momento você dará de cara com um "Especialista em coisa nenhuma".

Venho enfrentando muitas opiniões alheias a respeito de algumas decisões. E parando para pensar, nos momentos aos quais sempre precisei decidir por alguma escolha, lá estava ele ou ela: O especialista de nada! Que vai tentar bloquear qualquer que seja sua escolha. Hoje, muito mais que todas as vezes eu observo todos os passos deste ser...

O tipo de pessoa que projeta os próprios medos nas escolhas dos outros. Colocando em evidência suas escolhas e decisões com expressões do tipo: "Você ta doido?", "Precisa disso?", as vezes: "Se eu fosse você..." e tem os mais radicais que vão dizer: "Fulano fez e não deu certo...". Só que no fim das contas, baseado no que? No conhecimento? Não... Simplesmente o medo delas disfarçado de conselho amigo...

O que essas pessoas não sabem é que os palpites delas rebaixam as conquistas dos outros, simplesmente porque elas talvez na maioria das vezes, não tenha a mesma coragem. - Uma explicação interessante.

Pessoas tirando conclusões de um ou dois acontecimentos que viram na rede social ou site de pesquisa e se sentem na ilusão de saber o que é bom ou ruim, se vai dar certo ou não.

Cada ser é um universo. Ninguém é igual a ninguém.

A falta de empatia é tão grande que as pessoas acabam perdendo noção de qual é o seu lugar para acabar ditando regra no que as outras pessoas vivem...

A verdadeira maturidade é saber a hora certa de fazer silêncio...

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sábado, 23 de maio de 2026

O imediatismo que nos adoece

maio 23, 2026

Aceleração Social é o nome dado a isso que temos dentro de cada um que nos torna preocupados com o "pouco tempo que temos", conforme estudos do alemão Hartmut Rosa.

Nos vemos sempre atrasados, com o sentimento de estar ficando para trás em tudo. No tempo, em ações em coisas e objetos.

Vemos a velocidade como algo de grande valor e acabamos nos sacrificando o tempo todo por isso.

Não precisamos disso. É necessário abraçar o tédio, parar, sentir o nada, zerar e no fundo sentir a nossa principal e melhor companhia: nós mesmos.

Qualquer pessoa, hoje, cita a dopamina como algo extraordinário. Mas e se a gente parar por 1 minuto e refletir? E se parar- mos de perseguir tanto a recompensa final que talvez nem exista e que tanto almejamos?

Nosso cérebro todo atropelado pensando que tudo é baseado em uma linha de chegada, precisa dar uma pausa. A paz, a felicidade não está só atrás de uma linha de chegada ou atrás de um bom tempo de esforço ou "sofrimento".

O nosso presente, o nosso agora não é um obstáculo... É o que precisa ser vivido. O momento não precisa ser superado, não precisamos superar o momento, precisamos vivê- lo.

A doença da pressa (pesquise sobre o termo) nunca esteve tão presente em nossas vidas quanto hoje. Uma luta, um desespero cada vez pior que nos faz acreditar que as coisas precisam serem concluídas cada vez mais no menor tempo possível.

Experimente desacelerar, experimente a maravilhosa sensação de não ultrapassar a sua linha de chegada imaginária, pare e volte, sinta a coragem nisso...

Seu cérebro, sua pressão arterial, seu coração agradece...

Ai eu ouço: Mas eu cheguei antes de você, cheguei na frente!

Então vem a pergunta: E daí?

Estamos ficando doentes, nossa mente está se degradando dia a dia. E quais são as causas disso tudo? São coisas que se abrem num clique, resposta de mensagem em alguns segundos, vídeos de 15 segundos, o desespero ao ouvir uma notificação de mensagem, a obrigação de estar sempre presente e responder rapidamente.

A tecnologia que nos cerca, anda nos fazendo muito mal.

Vista de cima do Mirante da Coruja - Divisa entre Leme e Araras - SP na foto é a cidade de Leme.


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sábado, 16 de maio de 2026

A obsessão em evoluir dia a dia, destruindo a nossa mente.

maio 16, 2026
Você passa um dia todo, resolvendo problemas dos outros, resolvendo conflitos, problemas da própria profissão, pensando nos boletos, aquele dia cansativo e tudo o que quer é encerrar o dia logo para ir para casa, ver a família, dar uma pausa e descansar...
Mas basta rolar o feed e ver todos os "de hoje está pago" postados, aquela música motivacional junto da foto no espelho da academia, sem dor, sem ganho! O percurso da corrida, do pedal, a foto da marmita fitness ou o prato quase vazio. Tudo lindo! Ai um olhar para dentro da gente e o pensamento: O que tem de errado comigo?

Vivemos na era da "evolução", obcecados por perfeição, por ser melhor a cada dia, por estar sempre a um passo a frente de todo o resto! E no fim das contas entramos no círculo da autocobrança. E no fim do dia, o que era para ser de descanso é de apenas culpa...
Instantaneamente, seu tempo, que sim, deve ser de descanso, vira tempo perdido...
É ai que adoecemos, sim, por mais que você pense ai que não, que é saúde, lá no fundo, não é bem assim, porque como sempre digo: ninguém é igual a ninguém...

Nossa vida tem altos e baixos, hoje está tudo bem, amanhã pode não estar. Você pode tirar o dia para não fazer nada, para não se cobrar, e está tudo ok. O dia a dia não precisa ser algo linear, devemos respeitar nosso ciclo biológico, dias ruins, dias bons, deixar fluir como devem ser.
Se estar bem ou estar em paz depender de ter "evoluído" hoje ou ter cumprido metas de esforço, infelizmente é apenas uma autoestima frágil e nenhum argumento que "refute" esta ideia fará sentido...

Caso não concorde, tudo bem, ninguém é igual a ninguém, mas, e se a gente parar por um minuto e refletir?

O equilíbrio entre querer melhorar e saber a hora de respeitar o próprio ritmo é algo que temos que buscar todos os dias. O que mais temos é gente cansada de se cobrar tanto.


 

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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Se eu consegui, qualquer um consegue...

maio 07, 2026


É uma maneira de pensar um pouco perigosa. O fato de ter chegado a algum lugar, não significa que tudo foi tão simples. O fato de acabar nos esquecendo de todo o processo, de toda a dificuldade as quais passamos, nos leva a acreditar que foi simples. Mas nunca foi. Todas as dores, todos os sofrimentos, toda a falta de vontade que por muitas vezes permanecia mas mesmo assim, no fim, chegamos a um lugar.

Simplificar toda essa dificuldade e apontar para alguém e afirmar que se eu consegui, qualquer um consegue é deixar de lado além do esforço e dificuldade passado, outros fatores como: sorte, suporte financeiro, genética, momento emocional favorável e muitos outros que de certa forma acabam tornando com que o caminho seja mais fácil.

Acreditar que foi só querer e conseguir acaba jogando a responsabilidade para outras pessoas de que talvez elas não tenham "querido o suficiente" e no fim, não terem conseguido.


Para quem já chegou ao topo da montanha, a subida parece óbvia e simples. O cérebro esquece o nível de dor e esforço cognitivo que eram necessários quando você ainda estava lá embaixo. Isso torna o discurso encorajador, mas, às vezes, insensível à realidade alheia.

 

É preciso ter muito cuidado, então, ao tentar ser encorajador e acabar fazendo com que ao invés de incentivar, acabe desmotivando...

O psicólogo Albert Bandura estudou a Autoeficácia, que é a crença na própria capacidade de realizar tarefas.
Ao tentar motivar os outros com a frase "qualquer um consegue", você está tentando transferir a sua autoeficácia para outra pessoa.
Resumindo, o estudo mostra que o que realmente motiva não é ouvir que "é fácil" ou que "qualquer um faz", mas sim ver alguém parecido com você superando obstáculos reais e admitindo que foi difícil.
Embora essa frase pareça motivadora, ela pode ser uma faca de dois gumes: Para quem fala: Cria uma pressão imensa para nunca mais falhar (afinal, se você diz que é "só querer", o dia que você tiver uma recaída, parecerá que você "não quis"). Para quem ouve: Pode gerar frustração e culpa. Se a pessoa tenta e não consegue (por questões hormonais ou psicológicas que você talvez não tenha enfrentado), ela se sente inferior.
Portanto eu desejo a mim e a você, que apesar de toda dificuldade, ainda haja forças para continuar, cada um na sua velocidade.
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