Hater
O alarme do celular tocou pontualmente às 6h. Pedro se levantou em um pulo, desligou o aparelho e encarou o espelho. Ajustou o foco nos ombros, fez uma pose rápida para checar o volume muscular e assentiu, satisfeito. Para ele, aquele era o único padrão aceitável de existência. Valeu um "storie" no instagram.
Mais tarde, na academia, Pedro movia as anilhas com o vigor de quem cumpre uma missão divina. Entre uma série e outra de agachamentos, seu olhar varria a sala com julgamento. Na esteira ao lado, um homem na casa dos quarenta anos caminhava a passos lentos enquanto ouvia um podcast.
Pedro balançou a cabeça com desprezo visível e soltou um resmungo para seu parceiro de treino, Igor, que vestia a mesma camisa de treino combinando:
— Olha lá. Vir para a academia para caminhar? Se for para não dar o sangue, era melhor nem ter saído da cama. O ser humano não tem mais disciplina hoje em dia.
Igor concordou com a cabeça, rindo. Para Pedro, o mundo se dividia entre "quem busca a evolução física" e "os fracos". Não havia meio-termo.
— Lugar de bicicleta é no parque! Fica atrapalhando quem trabalha de verdade!
O ciclista apenas acenou, ignorando a provocação, o que deixou Pedro ainda mais furioso. Na cabeça dele, o esporte de verdade era o dele — a musculação e o futebol de fim de semana com a sua turma. Qualquer outra modalidade ou uso da rua fora do seu padrão era uma aberração.
Mariana, da equipe de design, sentou-se na mesa ao lado e comentou com outra colega sobre uma notícia política que lera naquela manhã, expressando uma opinião diferente da visão de Pedro.
Pedro travou o garfo no meio do caminho. Girou o corpo na cadeira e interveio sem ter sido chamado:
— Você só pode estar de brincadeira, né, Mariana? Como alguém com um pingo de inteligência consegue defender uma estupidez dessas? É por causa de gente com a sua mentalidade que as coisas não andam.
— Pedro, eu só estava conversando com a Camila. Não pedi sua opinião e dá para discutir sem ofender? — respondeu Mariana, visivelmente incomodada.
— Não é opinião, é fato! Se você pensa diferente disso, você tá errada e ponto final. — sentenciou ele, levantando-se da mesa indignado e batendo a porta ao sair.
Enquanto conversavam, o garçom, um jovem universitário, cometeu o erro de puxar assunto sobre um evento cultural que aconteceria na cidade no fim de semana — uma apresentação de dança contemporânea e música instrumental.
Pedro deu uma risada irônica e disparou:
— Cara, traz só a cerveja. Quem é que perde tempo com essa palhaçada cultural aí? Coisa de gente sem o que fazer.
O garçom apenas recolheu os copos vazios e se retirou em silêncio. Na mesa, os amigos de Pedro riram e concordaram. Ali, cercado pelo espelho do seu próprio ego, Pedro se sentia invencível. Ele não percebia, no entanto, que cada grosseria, cada cara feia e cada julgamento só o deixava mais isolado em uma bolha minúscula, cego para o mundo diversificado que girava do lado de fora.
Após um dia exaustivo "defendendo seus princípios" na rua e no trabalho, Pedro finalmente chegou em casa, tomou banho e sentou-se em frente ao computador no quarto escuro. A luz fria do monitor iluminava seu rosto compenetrado. Para ele, o dia ainda não tinha acabado; faltava cumprir sua patrulha diária nas redes sociais.
Na legenda, escreveu com um moralismo afinado:
"O corpo é o templo da mente. Quem não cuida da própria saúde, não respeita a própria vida. A disciplina é a única virtude que separa os fortes dos fracos. Respeite o seu processo, mas nunca aceite a mediocridade. 🦾🏋️♂️ #Foco #Disciplina #AltaPerformance"
Pedro sorriu satisfeito. A legenda soava quase filosófica, exalando uma falsa empatia e uma busca por iluminação que não passavam de uma vitrine vazia.
O sangue de Pedro ferveu. Ele não conseguiu apenas ignorar e rolar a tela. A necessidade de provar a superioridade do seu "bando" falou mais alto. Sem pensar duas vezes, usou o teclado como arma e deixou um comentário carregado de deboche, projetado puramente para provocar raiva (rage baiting):
"Depois a geração atual não sabe por que é fraca e doente. Trocar treino de verdade por 'meditação'? É muita falta de vergonha na cara. Coitado dos seus pais."
Instantes depois, as primeiras notificações começaram a chegar. Outros usuários da sua "bolha" curtiram o comentário e responderam em tom de deboche, validando o ataque. Pedro sentiu uma descarga rápida de dopamina. Ali, protegido pela tela, ele se sentia o juiz moral do mundo.
Em vez de se alegrar pela conquista do conhecido, Pedro sentiu um desprezo imediato. Ele não escreveu abertamente na foto para não se expor, mas mandou o link no grupo de WhatsApp dos seus amigos de treino com uma mensagem áudio curta e ácida:
— Olha o estado do fulano, galera. O cara largou a mão completamente. Se entregou. Vitória de verdade é ter saúde e shape, o resto é desculpa.
Deitou-se na cama e pegou o celular para dar a última olhada nos números. Seu post na academia já tinha dezenas de curtidas e comentários elogiosos de pessoas que pensavam exatamente como ele.
Ele fechou os olhos achando que tinha feito a sua parte para "corrigir o mundo". Não percebeu que, por trás de toda aquela performance e do moralismo de fachada, sua noite terminava como seu dia começou: completamente desconectado da empatia, isolado na própria bolha e alimentando um vazio que nenhuma curtida conseguiria preencher.
Apenas sorriu com a sensação de dever cumprido. Ele achava que tinha vencido todas as discussões do dia. Não entendia que, na verdade, só tinha passado mais 24 horas lutando contra suas próprias sombras.
Um hater é uma pessoa que usa a internet ou o convívio social para hostilizar, criticar e espalhar negatividade gratuitamente sobre os outros, impulsionada pelo desprezo e pela incapacidade de aceitar o sucesso ou as diferenças alheias.
Talvez façamos por impulso, sem querer, às vezes... Evoluir é enxergar seus próprios erros e melhorar de forma que não sejam cometidos novamente.






